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2 - Por que História e Epistemologia da Ciência?

Tudo muito interessante, mas

Por quê História e Filosofia das Ciências?

Um problema é que conceitos, tais como massa, força, luz, eletricidade, etc., apesar de quotidianos, não são simples, têm longa evolução histórica, ontológica e epistemológica.

Leia esta página a respeito:

Perfil Conceitual
Conceitos físicos tais como 'força', 'energia' e 'massa' passaram por uma longa evolução histórica. O Perfil Conceitual analisa a coexistência de concepções prévias e científicas no mesmo indivíduo.

Na verdade, como diz Jammer,

"As concepções cientificas, embora frequentemente resultado da intuição espontânea, tendem a ser moldadas, tanto quanto possível, em analogia com as concepções da experiência diária." (JAMMER. O Conceito de Espaço)

Fica claro, portanto, que o conhecimento científico tem uma intrínseca base histórica.

Mas,

"Em nosso presente sistema de instrução acadêmica, uma discussão profunda e crítica dos conceitos fundamentais e aparentemente simples é conscientemente omitida. A análise histórico-crítica das concepções básicas em ciências é, portanto, de primordial importância, não apenas para o filósofo profissional ou para o historiador das ciências." (JAMMER, Conceitos de Força).

Portanto, cabe ao professor de Ciências e Matemática consciente, embasar seu ensino, não apenas no conteúdo em si, mas também na origem histórica e epistemológica dos conceitos.

Por outro lado, não podemos nos esquecer que o aluno não vem para nossas aulas como uma tabula rasa, um livro em branco a ser preenchido pelo professor, num modelo bancário Freireano.

Tabula rasa

Como já discutimos antes neste artigo, todos nós, desde as nossas primeiras explorações do mundo que nos rodeia quando bebês ou pouco mais que isso, começamos a adquirir espontaneamente conceitos sobre o funcionamento da 'máquina do mundo'. São esses conceitos que nos permitem viver o dia-a-dia, deslocarmo-nos, mover objetos, utilizar artefatos simples como alavancas, torneiras, janelas, gavetas e mesmo praticar desportos como futebol, tênis, tiro, etc. Essa é a chamada Física Intuitiva.

Inicialmente, as concepções que os alunos traziam eram denominadas misconceptions, isto é, concepções errôneas, porque eram diferentes das concepções científicas que o professor tentava transmitir.

analfabetismo matemático

Posteriormente, quando descobriram que essas concepções se assemelhavam a concepções que foram mantidas por cientistas e filósofos de eras passadas, tais como Física Aristotélica ou a Teoria do impetus de Buridan, passaram a denominá-las, mais suavemente, de concepções alternativas ou também de concepções espontâneas.

Já foram identificadas várias concepções alternativas associadas a cada um desses conceitos.

Por outro lado, o trabalho de Piaget e Garcia sobre Psicogênese e história da evolução da física desde a física de Aristóteles à física dos últimos períodos pré-newtonianos, estabeleceu correspondência estreita entre as quatro fases históricas e as quatro etapas da psicogênese. (PIAGET; GARCIA. Psicogênese e História das Ciências)

AristótelesI. os dois motores de Aristóteles
Erudissima Commentaria in primos quatuor Aristotelis de naturali auscultatione libros. Ioannis Grammatici cognomento philophoniII. o recurso a um único motor externo por Filopon
BuridanIII. o impetus de Buridan
NewtonIV. a aceleração de Galileu e Newton

Assim, numa primeira fase, que corresponde a um pensamento Aristotélico, aqueles autores identificaram, tanto no indivíduo quanto no pensamento Aristotélico, a presença das características de pseudo-necessidades, animismo, finalismo, primado do sensorial, egocentrismo, centração nos atributos, indiferenciação dos conceitos, contradições.

Na quarta fase, que corresponte a uma descrição Newtoniana, identificaram as características de transformações reversíveis, explicações causais, estruturação dos conceitos num sistema.

Por outro lado, segundo os PCN, o Ensino de Ciências é realizado através de conceitos, leis e fórmulas desarticulados, distanciados do mundo, vazios de significado, privilégio da teoria e da abstração, enfatizando o uso de fórmulas, em exercícios repetitivos em situações artificiais, apresentando o conhecimento como um produto acabado, fruto da genialidade de mentes superiores como as de Galileu, Newton ou Einstein

Os estudantes dividiriam-se, então, entre os 'geniozinhos' nerds sardentos e de óculos, que gostam de Ciências , e os 'normais', que detestam e, por isso, estariam inevitavelmente excluídos dessa parcela da cultura humana.

CDFcola

E continua o PCN, dizendo que o conhecimento tecnológico está integrado à nossa cultura e é indispensável à formação da cidadania.

O Ensino de Ciências no Ensino Médio deve contribuir para a formação de uma cultura científica efetiva, que permita ao indivíduo a interpretação dos fatos, fenômenos e processos naturais, situando e dimensionando a interação do ser humano com a natureza como parte da própria natureza em transformação.

Para isso, é essencial que o conhecimento cientifico seja explicitado como um processo histórico, objeto de contínua transformação e associado às outras formas de expressão e produção humanas, tais como as artes, etc. (PCN, 2000)

Por outro lado, Paulos diz que o analfabetismo matemático, a incapacidade de lidar naturalmente com as noções fundamentais de números e probabilidades, é um mal que afeta demasiadas pessoas, as quais, de outra forma, até se poderiam considerar razoavelmente cultas, já que é costume considerar cultas as pessoas que estejam familiarizadas com Shakespeare, Dante ou Goethe, mesmo que ignorem completamente Gauss, Euler ou Laplace, os análogos matemáticos daqueles mestres das Letras (PAULOS. O Analfabetismo matemático e suas consequências).

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E Zamboni (A pesquisa em Arte) acrescenta que a Arte e a Ciência complementam-se, sendo formas complementares do conhecimento, regidas pelo funcionamento das diversas partes de um cérebro humano e único. Interessar-se por uma e repudiar a outra é como deixar atrofiar um braço ou uma perna.

O que você acha que é esta foto? Pense antes de apertar este botão. 

"Save Our Earth, Let’s Go Green" Visualization Challenge 2009 winner

Veja também esta página:

La Parade (detalhe), SeuratSeurat e o Pontilhismo
Seurat, pintor do fim do século XIX, aplicou as teorias de cor de Helmholtz e Maxwell no Pontilhismo, que alguns autores acreditam antecipar a visão quântica do mundo e a imagem digital, pixelizada.

Os PCN orientam que o Ensino das Ciências deveria apresentá-las como reconstruções humanas, entendendo como elas se desenvolvem por acumulação, continuidade ou ruptura de paradigmas, relacionando o desenvolvimento científico com as transformações da sociedade.

Mas Robilotta (O cinza, o branco e o preto) lamenta que, mesmo dominando com fluência alguns elementos do conteúdo técnico da Física [valendo o mesmo para as Ciências e a Matemática], em geral compreendemos pouco de onde ele veio e o que é a Física enquanto disciplina.

"A idéia que muitos professores têm de que é possível ensinar Física [e Química, Biologia, etc.] sem se fazer referência a esse processo [histórico e epistemológico] pode ser classificada [no mínimo] como ingênua." (ROBILOTTA, O cinza, o branco e o preto)

O que você prefere, então?

professor ingênuoSer um professor ingênuo.
professor espertoTer o trabalho de aprender coisas novas e mudar sua prática de ensino.

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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 10 Jul. 2014. Disponível em: <>. Acesso em: .

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Renato P. dos Santos