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9 - A Revolução na Biologia

A Revolução na Biologia

Enquanto Galileu e Newton estavam revolucionando a Física, como vimos na aula As Contribuições de Galileu e Newton, e Lavoisier estava fazendo sua parte na Química, como vimos na aula Lavoisier e a Revolução Química, a Biologia não estava parada.

De fato, conforme vimos na aula As Contribuições de Galileu e Newton, considera-se que a obra De Humani Corporis Fabrica (Da Organização do Corpo Humano) de Andreas Vesalius, publicada em 1543, foi uma das responsáveis pela deflagração da Revolução Científica na Europa.

No entanto, na verdade, a contestação ao Aristotelismo e à sua repetição pelo Escolasticismo, começou com Paracelso.

Paracelso (1493-1541)

ParacelsoParacelso, pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, foi um médico, alquimista e astrólogo suíço.

Formou-se em Medicina na Universidade de Viena com dezessete anos.

Paracelso rompeu com o Aristotelismo e o Galenismo, vistos na aula História da Epistemologia. Influenciou Francis Bacon, van Helmont e Boyle.

É incluído entre os precursores da Revolução Científica Européia, junto com CopérnicoVesalius e Agricola, já vistos na aula As Contribuições de Galileu e Newton.

Paracelso tinha afinidade com o Hermetismo, o neoplatonismo e o Pitagorismo, mas rejeitou as tradições gnósticas e as teorias mágicas de Agrippa (um dos outros discípulos de Trithemius) e Flamel.

Johannes TrithemiusParacelso estudou com Johann Trithemius, célebre intelectual da época e famoso alquimista e ocultista, criador da Esteganografia (não confundir com Estenografia, técnica de escrita abreviada e rápida), técnica de criptologia para esconder uma mensagem dentro de outra.

Esta técnica foi muito apreciada pelos ocultistas da época para proteger seus documentos secretos e, também, para aumentar o interesse neles.

É considerado o fundador da Bioquímica e um reformador do uso de medicamentos.

"Muitos têm dito da Alquimia, que ela é para a confecção de ouro e prata. Para mim, tal não é o objetivo, mas apenas para considerar qual virtude e poder pode estar nos medicamentos" (HOLMYARD, 1957, p. 170).

À medida que, por experimentação, novas substâncias químicas passavam a ser utilizadas como medicamento, o empirismo obtinha mais reconhecimento.

Personagem controverso, Paracelso viajava constantemente, buscando novos conhecimentos ou fugindo de seus detratores. Consta ter estado no Egito, na Terra Santa, na Hungria, na Tartária, na Arábia, na Polônia e em Constantinopla procurando por alquimistas.

Como vimos na aula História da Epistemologia, à época de Paracelso, a Medicina ainda seguia as idéias de Galeno. As doenças seriam causadas por 'impurezas' no corpo e, assim, para a cura, elas deviam ser eliminadas através de dietas, emeses (vômitos), purgas intestinais e sangrias, com o objetivo de restabelecer o equilíbrio entre os quatro humores aristotélicos.

sangria

Paracelso contrariou essa visão, afirmando que as doenças são causadas por ataques ao corpo por agentes externos, antecipando a teoria dos germens de Pasteur.

Para Paracelso, a doença era um desequilíbrio da Natureza, não uma possessão demoníaca, como até então se acreditava.

Galeno considerava a supuração um fenômeno benéfico; deixava-se a ferida progredir, com sangrias "para evitar inflamação", até a gangrena, quando, então, se procedia à amputação. Paracelso, ao contrário, defendia a limpeza do pus das feridas para sua cicatrização.

Baseado na teoria das correspondências da Magia Simpática, mencionada na aula História da Epistemologia, segundo a qual há algum tipo de semelhança ou analogia entre o objeto e seu efeito, Paracelso foi pioneiro na utilização de substâncias químicas e minerais na Medicina.

Paracelso - Homúnculo

Dez anos depois de Lutero ter afixado suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wüttenberg, Paracelso afixou no quadro de avisos da faculdade um convite público para suas aulas de Medicina, proferidas em alemão, em vez do convencional Latim.

Polêmico e bombástico, queimou em praça pública livros de Hipócrates, de Galeno e dos doutores árabes, aos quais repudiava como obsoletos. 

Por outro lado, é considerado o idealizador da farmacologia moderna e da Homeopatia, cujo princípio similia similibus curantur ("os semelhantes curam-se pelos semelhantes") é atribuído a ele.

Em sua obra Paramirum destacou a importância da observação clínica do paciente, ao contrário do costume dos médicos da sua época.

O Homúnculo de Paracelso

Dentre as idéias alquímicas de Paracelso, possivelmente a mais famosa foi a do homúnculo, um humanóide criado artificialmente, sem participação da mulher, num exercício de obscuras Leis da Natureza, supostamente de conhecimento dos alquimistas.

Paracelso - Homúnculo

No entanto, também é bem possível que o homúnculo seja apenas uma alegoria, uma interpretação muito literal das imagens tão frequentes nos livros alquímicos.

Alquimia - simbolismo

A vida de Paracelso está ligada ao nascimento do Luteranismo e suas opiniões sobre a natureza do universo são melhor compreendidos dentro do contexto das idéias religiosas que circularam durante a sua vida.

De fato, em vários países, por provir de um país com notável influência protestante, a aceitação ou não de suas teorias dependia da maior ou menor penetração do protestantismo. Na França, por exemplo, os seguidores de Paracelso, calvinistas em sua maioria, encontraram resistência dos médicos conservadores, galênicos e católicos. Na Inglaterra, por outro lado, com o Anglicanismo, a aceitação do paracelsismo foi mais fácil.

Apesar de afirmar ter conseguido fabricar o Elixir da Longa Vida, morreu aos 47 anos como demente, no hospital-convento de Saint-Etienne, em Salzburgo, Áustria.

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Andreas Vesalius (1514-1564)

Andreas VesaliusVesálio foi um médico belga, considerado o 'Pai da Anatomia Moderna'.

Como dito na aula As Contribuições de Galileu e Newton, considera-se que sua obra De Humani Corporis Fabrica (Da Organização do Corpo Humano) (disponível online no site Alma Mater da Universidade de Coimbra), foi um dos dois trabalhos revolucionários, ambos publicados em 1543, que deflagraram a Revolução Científica Européia. Conforme o costume, Vesálio dedicou esta obra a Carlos V, Imperador do Sacro Império Românico Germânico, seu protetor.

Vesalius - De Humani Corporis Fabrica

Vesálio criticava os médicos da época por delegarem

  • o cuidado dos pacientes aos escravos
  • a cirurgia aos barbeiros
  • os remédios aos boticários

Criticava também os professores de medicina que apenas repetiam os ensinamentos de Galeno, sem jamais terem contato real com pacientes e cadáveres, relegando a dissecação a assistentes ignorantes e analfabetos, incapazes de compreender e muito menos explicar o que faziam aos alunos. De qualquer forma, o objeto de estudo era o livro, não o corpo (WOOTON, 2006, p. 75); a dissecação era usada apenas para 'confirmar' o que estava escrito no livro; se algo parecesse diferente, "era culpa do cadáver", jamais de Galeno. A figura abaixo exibe o professor no alto de sua cátedra, lendo o livro aberto à sua frente e instruindo o assistente (geralmente um médico praticante), o qual dirige o trabalho do dissecador (WOOTON, 2006, p. 75).

Vesalius - Mondino - dissecação

Ao contrário, Vesálio não usava o livro. Dizia que o professor devia descer da cátedra e fazer a dissecação com as próprias mãos, como ele fazia. Dizia, também, que o professor devia ler do livro da Natureza, expressão muito semelhante à de Galileu, conforme vimos na aula Racionalismo e Empirismo.

Vesálio demonstrou que Galeno não podia ter dissecado seres humanos, já que havia muitas discrepâncias em suas observações, discrepâncias essas que eram relevadas por todos os galenistas, da mesma forma que os escolásticos negavam as manchas solares por não terem sido descritas por Aristóteles, como vimos na aula Racionalismo e Empirismo

Vesalius - Galeno - dissecação de animais

Em suas dissecações, acreditou ter encontrado uma comunicação entre os ventrículos esquerdo e direito, abrindo caminho para a compreensão do processo de circulação pulmonar. Para dar conta das incorreções apontadas sobre a descrição de Galeno, os irredutíveis defensores do galenismo chegaram a afirmar que o corpo humano havia mudado desde o tempo de Galeno!

Com Vesálio, a dissecação se tornou tão frequente e popular que teatros anatômicos especiais foram construídos na Itália e na Holanda (WOOTON, 2006, p. 76).

Teatro anatômico

As dissecações eram frequentadas não apenas por médicos e estudantes de medicina, mas também por filósofos, teólogos, cavalheiros e seus servos - incluindo mulheres na Holanda - (WOOTON, 2006, p. 76), tal como ilustrado na obra A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt.

Rembrandt - 'A Lição de Anatomia do Dr. Tulp'

Vale a pena mencionar Alessandra Giliani, representada na imagem abaixo, assistente de Mondino, primeira mulher a ocupar a posição de prosettore, o preparador da dissecação para uma aula de Anatomia, abaixo em hierarquia do professor e do demonstrador.

Alessandra Giliani
livro 'A Golden Web'. Barbara QuickA vida dessa pioneira foi retratada no livro A Golden Web, de Barbara Quick.

Vesálio foi duramente criticado por contrariar Galeno, ao negar a existência dos poros interventriculares, e a Bíblia, por afirmar que o homem não tem uma costela a menos, aquela de onde Deus teria feito Eva.

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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. . In Física Interessante. 4 Aug. 2014. Disponível em: <>. Acesso em: .

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